Wagner Pensa Hirata

Love and Bike Lifestyle

Arquivo para o mês “abril, 2014”

A síndrome de Maria Antonieta e o Rolezinho

Há séculos atrás a historicamente conhecida Maria Antonieta pediu ao povo faminto da França que comam brioches na falta de pão. Hoje o simplismo se repete: os “nobres” de nosso tempo, detentores do poder de compra e muitas vezes o poder político, lhes negam o novo básico. O tempo passou e historiadores já não acreditam que Maria Antonieta tenha realmente dita a famosa frase “Não tem pão? Que comam os brioches”, porém o simbolismo da frase é o diagnóstico de uma doença de nossos dias, muitos “privilegiados” simplesmente querem os “famintos” longe e satisfeitos mesmo sem saber como.
A nossa sociedade de consumo e do materialismo criou novas “necessidades básicas” e como no século XXVIII a população da França passava fome hoje a fome é de consumo, e como naquela época também hoje a “massa” vai à busca de satisfazê-la. O conforto e o egoísmo dos “nobres” lhes mostram os diferentes apenas como uma ameaça quando estes saem do papel de apenas sustentar o seu conforto e agem em busca de igualdade no mesmo conforto, e não se pode negar igualdade de ser egoísta já que a população de hoje não se busca mais o bem comum.
Desde a revolução industrial O Consumo foi o que moldou nossa sociedade no mundo todo. Diferente em nações mais igualitárias socialmente quanto à divisão de suas riquezas, países com grandes diferenças sociais muitos produtos são restritos, mesmo que informalmente, a apenas para parte da população. As empresas gastam fortunas para suas marcas representar sucesso, poder, dinheiro e beleza, mas nem sempre elas são acessíveis, ou seja, geram desejo a todos, até aos que não podem consumi-los. Assim se dá o inicio da grande insatisfação.
Assim os grandes centros de compras simbolizam isso: o local do consumo, local onde todas as marcas preferidas estão localizadas. Lá é onde se satisfazem as novas necessidades de status ao vestir, ao comer e ao se divertir. São as marcas de roupas, as lanchonetes de fast food; as redes de cinemas com filmes importados de super produções. Nesse ambiente, principalmente jovens, tem experiências as quais se orgulham em compartilhar com outros através das redes sociais. Nesses grandes encontros sempre existirá algumas pessoas mais exaltadas não só querendo passear.
Desta forma não há dúvida por que a escolha pelos shoppings centers. Os jovens respondem aos desejos despertados de consumo, eles querem suprir essas novas necessidades. E, como os “nobres” gostariam, não há como enxotá-los fora de seus ambientes exclusivos. Não há competição com lugares que não elevam status e não exige o consumo como parques, ruas, praças, teatros, centros culturais e outros espaços que não sejam entre essas paredes sem janelas. Nesses ambientes ricos por sua simplicidade lugares onde não há o que ostentar e compartilhar orgulhosamente com seus amigos, se perde fácil para a concorrência.
E assim, como séculos atrás, enquanto a desigualdade prevalecer à população em desvantagem vai tentar equilibrar, e eles vão causar incômodo. A questão que fica é: o pão antecedeu a Revolução Francesa séculos atrás, e hoje a grife e busca por status antecederá o que? Como se lê em alguns muros da cidade: “A favela vai cobrar”.

Wagner Mitsumaru Menescal Hirata
Comunicação Escrita – Faap
Abril 2014

Indescritível

Fatos:
Saio de casa as 7h pedalo 17 minutos, mas com as paradas nos semáfaros, chego ao trabalho 7h20; mais de 100 carros ultrapassados; chego a 45Km/h descendo o Viaduto 31 de Março e subo a Ponte Cruzeiro do Sul no vácuo a 50,6Km/h; coração passa os 160 batimentos por minuto e se fortalece; aumenta a produção de “hormonios do prazer” como a endorfina, serotonina e a ocitocina; musculos são fortalecidos; atenção é aumentada; tudo sem produção de poluição com a otimização de energia orgânica com a queima de 300 calorias para movimentar 76Kg de homem 12Kg de bicileta e 10Kg de carga por 7,5Km.
A história sem emoção.

Sentimentos:
Levanto as 5h e já brigo com a preguiça, mas ela é fraquinha sempre ganho por nocaute. Após a academia saio de casa excitadíssimo com o desejo enorme de chegar ao trabalho em poucos minutos pedalando. O trajeto não é só de ruas, avenidas, carros, ônibus, viadutos e pontes, é um caminho vermelho de amor e de paixão.
Na partida subo o Viaduto 31 de Março com quase todas minhas forças, esmago o guidão da bicileta com a firmeza com que a seguro, tudo para chegar a pouco mais de 30Km/h, mas depois tem a deliciosa decida. Passo carros e onibus, tomo muito cuidado, principalemnte com os humanos (temporariamente fortes) que me vee mas mesmo assim entram em minha frente, indiferentes, como se eu não fosse homem nem objeto, como seu não fosse nada.
Mas curto o caminho, o pedalar cria momentos tão intensos e cheios de vida que a campainha tem personalidade própria e toca sozinha e meus lábios não se calam toda vez que pessoas assustadas, admiridas ou indignadas percebem a minha presença sob a minha “Maquina do Amor” como define Vinicios de Moraes. Não consigo ser indiferente a presença do outro que me percebe e reajo com um surpreendente, assustador ou agradável, “Oi”, “Bom Dia” ou asceno de cabeça.
Continuo e vou rápido, muito rápido, sinto cada ondulação na rua, os buracos, as partes secas ou molhadas, no semáforo vermelho diminuo aos poucos a velocidade na esperança de pegar o embalo da mutação do vermelho para o verde, por que assim economiza muito mais energia do que simplesmente parar e ter que reacelerar.
Logo a frente o concreto me desafia: a Ponte Cruzeiro do Sul. Novamente esmago meu guidão com a força muscualr que parece ser suficiente para quebrar meus ossos. Mas agora já tenho o embalo e a velocidade de mais de 500 metros antes do meu desafiante, coloco a marcha mais pesada, travo a suspensão e coloco toda minha força nas pernas para pedalar, nos braços para me direcionar e no meu abdomem para mirar meu corpo certeiramente contra o vento para ele não bater com força em meu peito e dobrar meu esforço e cansaço. Nesse momento mal olho para os lados, só vejo se não vem ninguem fugindo da Marginal Tietê que queria me expulsar da ponte que é nossa. Olho para o chão, os rodas da minha máquina do Amor girando a mil por hora me levam a mais de 40Km/h naquela subida interminável. As pernas dõem e a subida acaba, já diminuo a marcha e solto a suspensão, já não preciso me matar para manter a velocidade. Levanto o peito, relaxo e curto a paisagem: vejo pessoas nos pontos, os motoristas apressados, carroceiros, nobres trabalhadores da limpeza, interajo quando posso, cumprimento os motoristas de ônibus parados nos sináis e sinalizo para que me vá em minha frente, eu que estou “invadindo” a faixa exclusiva deles. Mas prefiro assim: fora da lei invadindo a faixa dos irmãos grandes, pela vida, sem poluir e impotente de machucar, mas com todo poder de Amar.
A não-violência me acompanha e vamos juntos de mãos dadas o caminho todo, mesmo quando pessoas nervosas estão atras ela me faz parar quando um irmão quer atravessar a rua, mesmo que o sinal esteja verde, mas também autoriza “furar” os vermelhos mas só com a condição de verificar se não há ninguém vindo A não-violência me poupar da manada de apressados e raivosos que se aglomeram e quase cantam pneu para sair, Deus me livre estar na frente deles. A não-violência, sempre junto da Senhora Humildade, me faz antecipar cada desatenção ou indiferença alheia. Nos momentos que valem uma vida não existe certo nem errado, direito nem dever, o que vale é poupar vidas principalmente dos fracos e vulneráveis. Nessa hora é melhor ser um homem humilde vivo que um orgulhoso morto, essa é a escolha. Não quero o poder de agredir, machucar e matar.
Cada dia que chego ao trabalho o gozo tão grande, que só pode ser explicado pelos hormônios liberados, mas além das explicações físicas e lógicas a melhor é a explicação ilógica, pessoal e espirituais. Ela me faz olhar no espelho aquele cara um pouco cansado mas infinitamente disposto, suado, saudável, feliz e chego a conclusão: como é bom amar, como é bom pedalar.
Um banho frio tomado e de novo pronto: mais amor mais vida.

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